Legislator Jurisprudence & Législation
752/2025 Généré par l'IA

Portuguese Constitutional Court dismisses Public Prosecutor's appeal due to lack of procedural interest when a lower court uses an alternative legal basis.

Numéro de cause 752/2025
Autorité / Tribunal
Juridiction Portugal (PT)
Issue du litige Irrecevable (Inadmissible)

Synthèse Legislator

Généré par l'IA

The Public Prosecutor filed a mandatory constitutional appeal challenging the lower court's refusal to apply Article 1(2) of Law 6/2021, claiming it violated constitutional principles. The court found that while the lower court did reject the challenged norm, it simultaneously relied on Article 8(1) of Decree-Law 433/82 to absolve the defendant based on the absence of negligence. Consequently, the court ruled the appeal inadmissible because the alternative legal reasoning would render the constitutional review useless for the final decision.

Regeste Legislator

Généré par l'IA

Art. 280(1)(a) and (3) of the Constitution; Art. 70(1)(a) of the Constitutional Court Law; A mandatory constitutional appeal is inadmissible for lack of procedural interest when the challenged norm's invalidity is irrelevant due to the existence of an alternative legal basis that sustains the lower court's decision.

Mots-clés

Généré par l'IA
mandatory constitutional appeal procedural interest useless review alternative legal basis lack of utility concrete constitutional review inadmissibility constitutionnalité

Dispositions légales citées

Généré par l'IA
Art. 280(1)(a) and (3) of the Constitution
Art. 70(1)(a) of the Constitutional Court Law
Art. 72(1)(a) of the Constitutional Court Law
Art. 75(1) and 75(A)(1) of the Constitutional Court Law
Art. 78(4) of the Constitutional Court Law
Art. 84(1), 2 and 3 of the Constitutional Court Law
Généré par l'IA

Vous souhaitez savoir comment cet arrêt s'applique à votre dossier ?

Analysez cette décision avec la législation fédérale, le droit cantonal, la doctrine et la jurisprudence subséquente dans Legislator AI.

Ouvrir dans Legislator →

Texte complet

ACÓRDÃO Nº 470/2026

Processo n.º 752/2025

2.ª Secção

Relator: Conselheiro José Eduardo Figueiredo Dias

Acordam na 2.ª Secção do Tribunal Constitucional

I. Relatório

1. Nos presentes autos, vindos do Juízo Local Criminal de Braga – Juiz 2, do Tribunal Judicial da Comarca de Braga, veio o Ministério Público interpor recurso de constitucionalidade para este Tribunal Constitucional, ao abrigo da alínea a) do n.º 1 do artigo 70.º da Lei da Organização, Funcionamento e Processo do Tribunal Constitucional (Lei n.º 28/82, de 15 de novembro, doravante LTC), constando do respetivo requerimento de interposição o seguinte:

«(…)

O Ministério Público, notificado da decisão proferida nestes autos com a referência 194893692, vem dela interpor recurso obrigatório para o Tribunal Constitucional, ao abrigo do disposto no artigo 280.º, n.º 1, alínea a) e n.º 3, da Constituição da República Portuguesa, nos artigos 70.º, n.º 1, alínea a), 72.º, n.º 1, alínea a), e n.º 3, 75.º n.º 1, 75.º A, n.º 1, 78.º, n.º 4, todos da Lei do Tribunal Constitucional, aprovada pela Lei n.º 28/82, de 15 de Novembro,

uma vez que, na mesma, foi recusada a aplicação da norma constante do artigo 1.º, n.º 2, da Lei n.º 6/2021, de 19 de Fevereiro, com fundamento na sua inconstitucionalidade, por violação dos princípios constitucionais da culpa, da igualdade e da proporcionalidade, consagrados nos artigos 1.º, 13.º, n.º 1, 18.º, n.º 1, 25.º, n.º 1, e 30.º, n.º 1, da Constituição da República Portuguesa.

(…)».

2. O recurso de constitucionalidade foi admitido no tribunal a quo por despacho de 11 de junho de 2025.

3. Subidos os autos a este Tribunal, o recorrente foi notificado para apresentar as suas alegações.

4. O Ministério Público apresentou alegações, concluindo no sentido do não conhecimento do objeto do recurso por falta de pressupostos formais, nos seguintes termos:

«1. Da interposição do recurso obrigatório de constitucionalidade por parte do Ministério Público

O recurso do Ministério Público foi interposto“(…) ao abrigo do disposto no artigo 280.º, n.º 1, alínea a) e n.º 3, da Constituição da República Portuguesa, nos artigos 70.º, n.º 1, alínea a), 72.º, n.º 1, alínea a), e n.º 3, 75.º n.º 1, 75.º A, n.º 1, 78,º, n.º 4, todos da Lei do Tribunal Constitucional, aprovada pela Lei n.º 28/82, de 15 de Novembro, uma vez que, na mesma, foi recusada a aplicação da norma constante do artigo 1.º, n.º 2, da Lei n.º 6/2021, de 19 de Fevereiro, com fundamento na sua inconstitucionalidade, por violação dos princípios constitucionais da culpa, da igualdade e da proporcionalidade, consagrados nos artigos 1.º, 13.º, n.º 1, 18.º, n.º 1, 25.º, n.º 1, e 30.º, n.º 1, da Constituição da República Portuguesa”.

2. Da decisão judicial recorrida

No Tribunal Judicial da Comarca de Braga- Juízo Local Criminal de Braga - Juiz 2- foi proferida, a 25.02.25, a seguinte decisão:

“ (…) Entendemos, no entanto, que a norma do n.º 2 do artigo 1.º da Lei n.º 6/2021, de 19 de Fevereiro é inconstitucional, por violação dos princípios constitucionais da culpa, da igualdade e da proporcionalidade, na medida em que estabelece uma coima de valor fixo aplicável quando incumprido o prazo a que se reporta o n.º 1 do mesmo artigo. (…) Sem prejuízo do exposto, mesmo que assim não se entendesse, o que apenas por mera hipótese se admite, sempre se diga que decorre do disposto no artigo 8.º, n.º 1 do Decreto-lei n.º 433/82, de 27 de Outubro que "só é punível o facto praticado com dolo ou, nos casos especialmente previstos na lei, com negligência". In casu, não resulta do disposto no artigo 1.º, nº 2 da Lei n.º 6/2021, de 19 de Fevereiro qualquer referência à punibilidade da negligência, pelo que também, por esta via, se impunha a absolvição do recorrente” (sublinhado nosso).

3. Admissibilidade do Recurso

Importa apurar, em primeira linha, sobre a admissibilidade do recurso interposto.

Constitui jurisprudência firme deste Tribunal que os recursos interpostos no âmbito da fiscalização concreta da constitucionalidade têm uma função instrumental, o que significa que apenas poderá conhecer-se do respetivo objeto nos casos em que o julgamento da questão de constitucionalidade for suscetível de repercutir-se, de forma útil e eficaz, na solução jurídica do caso concreto.

Sempre que a resolução da questão de constitucionalidade for insuscetível de confrontar o tribunal a quo com a necessidade de reformar o sentido do seu julgamento, o conhecimento do objeto do recurso carecerá de utilidade, como acontece no caso em apreço.

Como se escreveu no Acórdão do TC n.º 76/2022, «Não está, portanto, verificado o pressuposto da ratio decidendi, que constitui uma inerência do caráter instrumental dos recursos de fiscalização concreta da constitucionalidade: embora estes recursos se restrinjam à questão da invalidade da norma, é necessário que as decisões proferidas no seu âmbito possam repercutir-se sobre a decisão recorrida, o que só pode acontecer quando haja coincidência entre a norma cuja inconstitucionalidade é invocada e a norma ou normas que foram de facto aplicadas pelo tribunal recorrido para fundamentar a sua decisão. Visto que no presente caso essa coincidência não se verifica, um eventual juízo de inconstitucionalidade por parte do Tribunal Constitucional relativamente a uma norma extraída dos preceitos indicados não poderia repercutir-se, em termos de impor a sua reforma, sobre a decisão recorrida».

E o mesmo se diga quando se verifique que a decisão judicial recorrida convoca fundamento alternativo ou subsidiário cuja subsistência não é posta em causa pelo eventual juízo quanto à inconstitucionalidade da norma objeto de fiscalização no recurso para o Tribunal Constitucional.

Sendo este recurso interposto em sede de fiscalização sucessiva concreta, a prolação de decisão favorável só se justifica se o juízo a proferir pelo Tribunal Constitucional for apto a produzir efeitos sobre a decisão recorrida. De outro modo, a decisão a proferir revelar-se-ia plenamente desprovida de utilidade processual.

Ora, conforme resulta, inequivocamente, do teor da douta decisão recorrida foi decidido que “Sem prejuízo do exposto, mesmo que assim não se entendesse, o que apenas por mera hipótese se admite, sempre se diga que decorre do disposto no artigo 8.º, n.º 1 do Decreto-lei n.º 433/82, de 27 de Outubro que "só é punível o facto praticado com dolo ou, nos casos especialmente previstos na lei, com negligência". In casu, não resulta do disposto no artigo 1.º, nº 2 da Lei n.º 6/2021, de 19 de Fevereiro qualquer referência à punibilidade da negligência, pelo que também, por esta via, se impunha a absolvição do recorrente”.

Sobre a matéria da instrumentalidade dos recursos de fiscalização concreta da constitucionalidade tem-se pronunciado bastamente o Tribunal Constitucional, no sentido que fica bem ilustrado pelo douto Acórdão n.º 282/11, no qual esclarece que:

“O Tribunal Constitucional tem afirmado reiteradamente o carácter instrumental dos recursos de fiscalização concreta de inconstitucionalidade: a decisão do recurso deve apresentar a virtualidade de se projectar de forma útil na decisão recorrida, de modo a alterar a solução jurídica obtida no caso concreto, mediante a reponderação do caso pelo tribunal comum (neste sentido, entre muitos outros, Acórdãos nºs 14/91, 454/91, 169/92, 272/94, 324/94, 332/94, 337/94, 343/94, 463/94, 577/95, 608/95, 41/96, 148/96, 366/96, 1015/96, 196/97, 490/99, 635/99, 362/2000 e 687/2004 – os arestos citados sem indicação do lugar de publicação podem ser consultados em www.tribunalconstitucional.pt). O julgamento do recurso carecerá, por isso, de utilidade quando, qualquer que seja a solução a dar pelo Tribunal Constitucional à questão de inconstitucionalidade, ela se mostre irrelevante para a solução do caso concreto, mantendo-se obrigatoriamente inalterada a decisão impugnada”.

Ora, resulta evidente da decisão recorrida que a menção supra exposta não é um simples obiter dictum, mas antes um outro e verdadeiro fundamento alternativo, que se adita ao fundamento principal convocado nesse aresto e que seria sempre suficiente, de per si, para a absolvição do arguido, referindo-se que que, mesmo que assim não fosse, sempre seria absolvido devido a esse segundo fundamento.

Deste modo, mesmo que se concluísse pela inconstitucionalidade do primeiro fundamento, sempre esse segundo fundamento se manteria perfeitamente inalterado.

Assim, qualquer que viesse a ser o juízo a formular por este Tribunal quanto à aludida norma declarada inconstitucional, o sentido da decisão recorrida permaneceria inalterado restando, assim, concluir que não deve ser conhecido o objeto do presente recurso de constitucionalidade, por não se verificarem preenchidos os pressupostos de admissibilidade do mesmo exigidos pela alínea a) do n.º 1 do artigo 70º da LTC.

4. Em conclusão:

Pelas razões invocadas ao longo das presentes alegações, julga-se que este Tribunal Constitucional não deve tomar conhecimento do objecto do recurso por falta de pressupostos formais de que depende a admissibilidade da fiscalização concreta de constitucionalidade.».

5. Não foram apresentadas contra-alegações.

Cumpre apreciar e decidir.

II. Fundamentação

6. Nos presentes autos foi interposto recurso de fiscalização concreta da constitucionalidade ao abrigo da alínea a) do n.º 1 do artigo 70.º da LTC, norma que estabelece caber recurso para o Tribunal Constitucional «das decisões dos tribunais (…) [q]ue recusem a aplicação de qualquer norma, com fundamento em inconstitucionalidade».

São, assim, pressupostos do recurso de constitucionalidade interposto ao abrigo da alínea a) do n.º 1 do artigo 70.º da LTC: i) que a decisão recorrida tenha recusado efetivamente a aplicação de certa norma ou interpretação normativa, relevante para a resolução do caso; e ii) que tal desaplicação normativa se funde num juízo de inconstitucionalidade.

Por outro lado, os recursos de fiscalização concreta de constitucionalidade têm um caráter instrumental em relação ao processo-base, impondo-se que a norma ou interpretação normativa cuja aplicação foi recusada seja determinante na decisão do caso, porquanto, só assim, um eventual juízo de inconstitucionalidade poderá determinar a sua reforma (cfr. artigo 80.º, n.º 2, da LTC). Caso a norma sindicada seja lateral à decisão sob análise, ou quando o eventual julgamento de inconstitucionalidade de tal norma/interpretação normativa for insuscetível de se poder repercutir, de forma útil, na decisão recorrida, de modo a alterá-la, no todo ou em parte, não haverá utilidade no recurso e, como tal, o mesmo será inadmissível, por falta de interesse processual.

7. Compulsados os autos, verifica-se que o tribunal a quo recusou, na realidade, a aplicação da norma constante do artigo 1.º, n.º 2, da Lei n.º 6/2021, de 19 de fevereiro, com fundamento na sua inconstitucionalidade, por violação dos princípios constitucionais da culpa, da igualdade e da proporcionalidade, consagrados nos artigos 1.º, 13.º, n.º 1, 18.º, n.º 1, 25.º, n.º 1, e 30.º, n.º 1, da Constituição da República Portuguesa. Consequentemente, absolveu o aí recorrente da contraordenação que lhe era imputada.

Nestes termos, afigura-se verificada, no caso concreto, uma efetiva recusa de aplicação de uma norma, com fundamento na sua desconformidade com a Lei Fundamental.

Sucede, porém, que, compulsada a decisão recorrida, e tal como sustenta o recorrente, se constata a existência de uma ratio decidendi alternativa, que determina a inutilidade do presente recurso de constitucionalidade e, em consequência, o respetivo não conhecimento.

Vejamos.

8. Estabelece-se na decisão recorrida que:

«Sem prejuízo do exposto, mesmo que assim não se entendesse, o que apenas por mera hipótese se admite, sempre se diga que decorre do disposto no artigo 8.º, n.º 1 do Decreto-lei n.º 433/82, de 27 de Outubro que "só é punível o facto praticado com dolo ou, nos casos especialmente previstos na lei, com negligência".

In casu, não resulta do disposto no artigo 1.º, n.º 2 da Lei n.º 6/2021, de 19 de Fevereiro qualquer referência à punibilidade da negligência, pelo que também, por esta via, se impunha a absolvição do recorrente.» – sublinhado nosso.

9. Nestes termos, no que diz respeito à questão de constitucionalidade invocada, ainda que prosseguisse o recurso, qualquer que viesse a ser a decisão do Tribunal Constitucional ela seria inútil para a decisão do caso concreto. Assim sendo, mesmo que não viesse a ser confirmado o juízo de inconstitucionalidade proferido nos autos, sempre o tribunal a quo permaneceria habilitado a manter o decidido, com suporte no fundamento alternativo relativo à aplicação do direito infraconstitucional transcrito supra.

Atento o referido caráter instrumental do recurso de fiscalização concreta da constitucionalidade, a apreciação da questão delimitada pelo recorrente não é, pois, suscetível de se repercutir, de forma útil e efetiva, na decisão proferida pelo tribunal recorrido. Em suma, tendo a decisão ora recorrida adotado a fundamentação alternativa descrita supra, não subsiste efeito útil no presente recurso, dado que a decisão atacada in casu não seria afetada pelo conhecimento do seu objeto material e pelo juízo que sobre ele incidisse nesta sede.

Consequentemente, não pode conhecer-se do mérito do recurso e conclui-se, desde já, pela respetiva inadmissibilidade.

III. Decisão

Face ao exposto, decide-se não conhecer do objeto do recurso interposto.

Sem custas – cfr. artigo 84.º, n.ºs 1, 2 a contrario, e 3 a contrario, da LTC.

Lisboa, 26 de maio de 2026 - José Eduardo Figueiredo Dias - Mariana Canotilho - Dora Lucas Neto - António José da Ascensão Ramos - João Carlos Loureiro